A cidade de São Paulo não existe mais. Só restam

colunas de concreto calcinado e a névoa amarela

dos dias sem sol. O novo sistema de

sobrevivência exige que as últimas famílias

registradas se unam por contrato: uma aliança de

sangue e recursos para garantir água potável em

troca de procriação controlada.

Ela, Mariana, entra na Cidadela de Água como

parte da Nova Aliança. Não foi escolhida — foi

selecionada. Filha de uma camponesa morta de

desidratação, ela só sobrevive porque seu nome

está no registro da Linha Reservada: "Sangue

Vivo".

O homem com quem deve se casar é Gabriel, filho

do Líder da Cidadela, cujo DNA foi testado como

resistente à radiação. Seu corpo tem um sinal

azul tatuado na nuca — marca de que já foi usado

em experimentos antigos. Ele nunca tocou ninguém

desde o Apocalipse.

No dia do Cerimonial, o sistema de abastecimento

falha. A torre central desliga. As luzes

vermelhas pulsam. O chão trema. Duzentas pessoas

dentro da Cidadela têm trinta minutos para

escapar ou morrer de desidratação em dois dias.

Mariana não corre. Ela vai até a sala de

controle e abre a porta principal do

reservatório subterrâneo — onde estava escondido

o segredo da verdade: o sistema não depende de

captação de chuva, mas de purificação humana. A

água vem do suor, da urina, do sangue coletado

diariamente em “campos de limpeza”.

Gabriel chega atrás dela. Não diz nada. Pega uma

faca de metal e corta o próprio braço. Deixa

cair três gotas no recipiente de entrada. O

sistema reativa. O fluxo volta.

Ele olha para ela. Sua voz é um fio de som.

“Você sabia que eu sou o último que não foi

registrado?”

Ela respira. E então, pela primeira vez, ele a

toca. Com a mão manchada de sangue, acaricia seu

rosto.

Dias depois, quando o sol volta a brilhar sobre

o concreto queimado, uma nova planta brota perto

do poço principal. Verde. Viva.

Mariana planta uma semente no solo. Gabriel não

a ajuda. Não precisa. Ela faz isso sozinha.

O sistema ainda funciona. Mas agora, há uma nova

regra.

As águas são puras.

Os contratos são quebrados.

E o amor?

É o que resta.