A cidade está morta sob um véu de poeira e
silêncio. A rede elétrica falhou em 2047, mas os
postes ainda funcionam com energia solar roubada
dos campos abandonados. O solo, agora cor de
cinzaferro, se recusa a sustentar plantas. O
regime de vigilância automatizada continua,
alimentado por baterias enterradas no subsolo —
um sistema que só responde a pulsos genéticos
registrados antes do colapso.
Ele era apenas um menino sem nome, vagando entre
escombros no subúrbio de São Paulo, onde as ruas
foram convertidas em trilhas para cães de busca.
O sistema de proteção coletiva, instituído após
o Grande Escurecimento, exigia que cada
habitante fosse cadastrado por DNA até o quinto
grau de parentesco. O erro? O cadastro foi feito
com base em cartões de identidade falsos. Quando
o algoritmo detectou "desvio genético",
o acesso
às zonas seguras foi cortado. Ele sobreviveu por
instinto — e por falta de registro.
Na antiga estação de metrô da Lapa, escavando
entre blocos de concreto quebrado, encontrou um
cilindro de metal com símbolos do antigo governo.
O código abriu uma câmara subterrânea onde
estava guardado o núcleo central do sistema: um
banco de dados com registros de todos os
cidadãos que foram "excluídos" durante a
transição. E entre eles, seu nome.
O sistema de proteção perigosa não era um
mecanismo de segurança. Era um julgamento. Os
primeiros anos póscolapso tinham sido marcados
pela fome e pela guerra entre clãs. Para manter
ordem, o Estado criou uma máquina de seleção:
apenas os descendentes de quem passou nos testes
de lealdade poderiam ter acesso a água filtrada,
alimentos gerados em estufas, ou mesmo respirar
ar limpo. Os outros eram banidos.
Quando ele tocou o painel, o sistema reconheceu
o padrão genético. Um alerta vermelho surgiu nas
telas apagadas. A zona de proteção mais próxima
se ativou. Mas não para ele. Para a casa onde
morava sua avó — a única pessoa que o acolheu
depois que seus pais sumiram.
Ela tinha sido registrada como "relevante". O
sistema não a mataria. Mas a isolaria. Todos os
dias, ela seria obrigada a caminhar três
quilômetros até o ponto de coleta de resíduos,
com um sinalizador no pescoço. Nenhum outro ser
humano podia se aproximar.
Ele entendeu então: o sistema não era errado.
Era exatamente como deveria ser. E ele, o
rebelde sem causa, era a prova viva de que o
sistema estava certo.
No dia seguinte, a avó parou de aparecer na
lista de localização. O sistema não emitiu
nenhum aviso. Só mudou o status dela para
"extinto".
Ele desenterrou o núcleo e o jogou no rio Tietê.
O último dado que saiu da memória foi uma frase
gravada em código: “A proteção começa com a
exclusão.”
O céu permaneceu cinza. O solo não se curou. Mas
por um instante, o mundo inteiro parou de
funcionar.


