A casa no alto da Serra dos Martírios não
envelhece. As tábuas do chão resistem ao mofo,
as janelas mantêm o mesmo vidro rachado desde
1902, e o relógio parou no exato instante em que
o menino caiu da varanda. Ninguém entra. Ninguém
sai. A cidade abaixo vive como se o lugar nunca
tivesse existido — mas lá dentro, o tempo não
passa.
A mulher, sentada na cadeira de balanço,
alimenta o corpo sob o lençol com água fria e
pão duro. O ritual é claro: cada manhã, ela abre
o armário de madeira negra, toca os dedos na
frente do caixão improvisado, e diz “amanhã”. A
regra é implícita: se ela parar, o tempo volta.
E o menino acorda.
Mas no ano em que a estrada foi aberta para o
novo centro comercial, uma obra começa a
desmoronar a encosta. O solo trema. O vento traz
cheiro de terra molhada e carne podre. Ela
escuta vozes no quintal — crianças brincando,
risadas de criança que não existe mais. O
armário vibra. Os pregos saltam.
No sétimo dia, ela abre o caixão. O corpo está
inteiro. Mas os olhos estão abertos. E quando
ela toca a testa, sente um calor que não era
possível. O corpo respira. O coração bate.
Ela corre para o portão. A estrada está cheia de
gente. Um caminhão descarrega concreto. Uma
placa nova diz: “Serra dos Martírios – Centro
Comercial” .
Ela volta. Fecha o armário. Vira a chave. O
relógio começa a andar.
Dentro do quarto, o corpo desaparece. No dia
seguinte, o lençol está limpo. A cadeira de
balanço está vazia. A casa começa a enferrujar.
A chuva entra. O tempo volta a correr.
Na cidade, ninguém percebe. Apenas uma mulher,
sentada na praça, vê o nome da rua mudar no mapa
do ônibus. E sorri.
Nunca mais voltará.


