A cidade respira em ciclos: cada manhã, o sol

nascia sobre os muros de pedra calcária e as

ruas se iluminavam como se fossem recriadas. Os

habitantes acreditavam que o sol era o corpo do

fundador, um antigo governante cuja alma ainda

pulsava sob as lajes. A tradição exigia que

todos caminhassem descalços na primeira luz — só

assim o poder da cidade permanecia vivo.

O herdeiro arrogante, filho do último senhor da

casa dos Moraes, chegou com carro e botas

importadas. Ele riu da proibição, calçou sapatos

no dia do sol nascente e entrou na Casa Velha

sem tocar o chão. No mesmo instante, as luzes

apagaram. O sino parou. Uma fissura rachou o

piso da sala principal.

Dias depois, os corpos começaram a sumir. Não

por morte — por ausência. Pessoas que estavam

ali um minuto desapareciam ao amanhecer, como se

nunca tivessem existido. A cidade começou a

esquecer nomes, rostos, histórias. O tempo parou

de ser linear.

Ele descobriu o baú no subsolo: madeira negra,

fechado com um cadeado de ossos humanos. Ao

abrir, viu fotografias antigas — homens e

mulheres que haviam vivido no mesmo lugar, mas

não tinham nome. Cada foto estava marcada com

uma data que não existia mais. O baú não

guardava herança. Guardava o que a cidade

eliminara para manter o equilíbrio.

No terceiro dia após o descobrimento, ele foi

chamado à praça central. A multidão estava em

silêncio. Um homem idoso, cego, falou sem voz:

“Você tirou a pele do sol.” Ele sentiu o calor

do ar diminuir. O céu escureceu antes da hora.

Naquela noite, o sol não nasceu.

A cidade começou a colapsar. As casas se

desfizeram em areia. As pessoas que restaram não

lembravam quem eram. Mas ele lembrou — porque o

baú não o deixou esquecer.

Na manhã seguinte, o sol voltou. Dourado.

Incansável.

E o herdeiro estava sozinho. Só ele sabia o que

acontecera. Só ele carregava o peso de um mundo

que escolheu lembrar.