O vento soprava forte na noite em que Maria das

Dores viu o espírito da mãe pela última vez. Na

pequena cidade de São Luís, durante a República

Velha, as crenças em bruxas e encantamentos

ainda eram respeitadas, mas a modernidade

começava a rachar os velhos costumes. Ela era

uma curandeira espiritual — a única mulher da

região capaz de conversar com almas e curar

males que a medicina não entendia. Sua reputação

era feita de segredos familiares, traições

veladas e promessas nunca cumpridas.

O clã dos Mendes, donos de uma fazenda de café,

precisava de um herdeiro para garantir o

controle sobre a região. O jovem Raimundo,

herdeiro único, era arrogante e desprezava

mulheres que não fossem de sua classe. Um pacto

foi feito: Maria seria sua esposa, em troca de

proteção contra uma maldição ancestral que

ameaçava o clã. A cerimônia seria realizada em

sete dias.

No primeiro dia, Maria descobriu que a maldição

não era apenas superstição. Um antigo ritual

havia sido quebrado décadas antes, e o espírito

de um antepassado malicioso começava a se

manifestar. O ritual exigia um sacrifício:

alguém de sangue puro e alma pura. Ela, por

acaso, era a única que satisfazia ambos os

requisitos.

No quarto dia, Raimundo tentou romper o acordo,

afirmando que ela era uma bruxa e não merecia

estar em sua família. Mas Maria já tinha visto o

espírito do antepassado — ele estava dentro dele,

alimentandose de sua arrogância. Ela decidiu

fazer o que ninguém esperava: invocar o próprio

vento, a força que a trouxe até ali, e usar o

poder do destino cruzado para desfazer o laço

que o ligava ao passado.

Na noite do casamento, o templo ficou em

silêncio. O vento rugiu como nunca antes, e a

fogueira queimou com chamas azuis. Raimundo,

agora sem o peso do espírito, caiu de joelhos,

vendo a própria alma refletida nos olhos de

Maria. Ela não o abandonou, mas também não o

aceitou. O pacto terminou com um beijo que não

era de amor, mas de liberdade.

A cidade falou por semanas sobre a noiva do

vento. Ninguém sabia se ela fora curada ou

condenada. Mas nas ruas de São Luís, as pessoas

deixaram de temer o vento — e começaram a rezar

para que ele trazesse mais curandeiras como ela.