O asfalto da cidade está rachado como pele de
cadáver. O ar cheira a metal queimado e orquídea
podre — planta selvagem que cresceu nas ruínas
do metrô há três anos. A nova ordem não é feita
de leis, mas de controles: cada bairro tem um
"sinal" de luz vermelha no topo do
prédio mais
alto, e quando acende, ninguém pode sair até o
sol passar.
Agora, no 47º dia do ciclo sem chuva, o sinal de
Morumbi não apaga. O magnata Poderoso, dono da
última central de energia que ainda gera
corrente, anuncia um novo acordo: quem entregar
um corpo vivo ao seu complexo sobreviverá ao
próximo ciclo. Nenhum nome. Nenhuma explicação.
Apenas um pedido escrito em papel com cheiro de
cinza.
O jornalista que vive nas ruínas da estação
Paulista encontra o bilhete escondido dentro de
um rádio antigo. Sabe que a oferta é falsa —
sabia desde que viu os primeiros mortos cobertos
de tinta azul, como se fossem pintados por um
ritual. Mas a irmã dele, desaparecida dois meses
antes, estava na lista de “coletados” pela rede
de segurança. Ele entra no plano.
Na madrugada do 51º dia, atravessa o túnel onde
o trem da linha 1 foi parado por um incêndio que
nunca foi apagado. O ar está pesado com fumaça
de plástico derretido. Chega ao complexo — um
edifício de concreto com janelas cegas e portas
que só abrem com palma de mão. Dentro, tudo é
limpo demais. O magnata espera no centro,
sentado numa cadeira de metal, olhos fixos no
chão.
Ele não pede um corpo. Pede que o jornalista
veja. Mostra o registro: 382 pessoas entregues
ao sistema. Todas foram “protegidas” — colocadas
em câmaras de recuperação, alimentadas com
nutrientes sintéticos, mantidas vivas enquanto o
cérebro era reescrito. Ninguém saiu. Eles agora
são o sistema.
A proposta indecente não era para matar. Era
para escolher: viver como algo que já não é
humano, ou morrer como homem.
No momento em que o jornalista tenta correr, o
magnata levanta. Diz apenas: “Você é o último
que ainda sente dor.” A luz vermelha do Morumbi
pisca. O sistema começa a funcionar.
No mesmo instante, o rádio que o jornalista
carregava — o mesmo que trouxe o convite — toca
uma música antiga. Um samba dos anos dourados. A
melodia sai do aparelho como se viesse de dentro
da própria parede.
E então ele entende: o magnata não quer salvar a
cidade. Quer preservar o que ela foi.
E a proteção perigosa não é para os vivos. É
para os mortos que ainda lembram.


