A cidade morta se alimenta de luzes apagadas. O
ar cheira a metal enferrujado e carne podre. Ele
caminha entre carros tombados, ombro encostado
em paredes que já foram prédios altos, agora
apenas esqueletos de concreto. Um rastro de
sangue seco marca seu caminho desde o dia em que
saiu da câmara de isolamento onde foram
colocados os últimos "livres" da Era Antes.
Ele encontra um carro blindado com o símbolo de
uma serpente enrolada em um rádio: veículo de
resposta urbana, ainda com bateria. As portas
estão trancadas por código, mas ele sabe que os
códigos são todos iguais nos antigos sistemas —
digitados na mesma sequência de antes. O corpo
dele se move automaticamente: três dedos no
teclado, um sinal sonoro, e a porta abre. Dentro,
um kit de sobrevivência, uma máscara de filtro
de ar com etiqueta dourada: Rebelde Sem Causa –
Categoria 7.
A máscara não é para proteção. É para
identificação. Na nova ordem, quem usa essa
máscara é considerado ilegítimo. Eles não podem
entrar nas Cidades do Ar, nem usar transporte
público, nem receber água filtrada. O sistema os
marca como insanos. Mas ele não tem escolha: a
máscara está presa ao rosto desde que foi tirado
do bunker.
Ele pega o carro e parte. Passa por um posto de
controle feito de contêineres empilhados, com
homens de uniforme cinza e olhos cobertos por
óculos de visão noturna. Um alarme soa quando o
carro entra na zona vermelha. Dois homens
aparecem com rifles de ar comprimido. Ele
acelera. O carro bate contra um muro de concreto.
O párachoque se rompe. O motor morre. Ele sai
correndo, a máscara escorregando no pescoço.
Na fuga, tropeça em um objeto metálico enterrado
no chão: um relógio de bolso com uma foto dentro.
Uma mulher sorrindo. Uma criança segurando um
balão azul. A foto está amarelada, mas ele
reconhece o rosto. Era a mãe dele. Não havia
fotos no bunker.
Ele volta ao carro. Abre o compartimento
traseiro. Encontra um diário com manchas de
sangue. Páginas escritas à mão: “Nós não somos
rebeldes. Somos os que acreditavam que o sistema
podia mudar.” A última linha diz: “Se você está
lendo isto, não use a máscara. Ela não é
proteção. É julgamento.”
No mesmo instante, um drone baixa do céu. Alvo
no centro da cabeça. Ele joga o diário no chão,
puxa a máscara, e a rasga. Jogou fora.
Dois dias depois, um grupo de quatro pessoas o
encontra em uma estação de trem abandonada. Ele
está sentado no trilho, olhando para o horizonte.
Ninguém fala. Todos têm máscaras. Ele sorri pela
primeira vez.
O sistema não pode mais rastrear quem não é
marcado.
Eles começam a caminhar juntos, sem destino.
O silêncio entre eles é denso.
Mas é possível.


