O sol racha como vidro sobre os ossos do
Pantanal. O que era alagado agora é pó
radioativo, com zonas verdes apenas onde
crianças nascidas após o Colapso desenvolvem
pele que filtra toxinas — mas só se nunca forem
tocadas por adultos contaminados. Essa é a Lei
do Contágio, escrita em sangue nos primeiros
anos, e quem a quebra é enterrado vivo nas
areias movediças.
Um homem caminha com luvas de couro e máscara de
metal trançado, único sobrevivente de uma
expedição ao antigo Campo Grande. Ele guarda um
frasco com sementes secas — prova de que o solo
pode voltar. Regra não escrita: quem traz
esperança vira alvo. Na noite seguinte, um grupo
de caçadores tenta roubar as sementes. Ele
resiste, mas vê uma figura entre as dunas — uma
mulher com as mãos descobertas, andando sobre a
areia venenosa sem dor.
Ela aparece no acampamento ao amanhecer. Não usa
máscara. Pele bronzeada, cicatrizes em forma de
raiz debaixo dos olhos. Toca o chão com os dedos
e murmura sons que fazem brotar um tufo de capim
negro. Ele recua. Toque = morte lenta. Mas ela
não morre. E ele, pela primeira vez em dez anos,
sente o cheiro de terra úmida quando ela se
aproxima.
Regra nova surge: quem é imune não pode ser
isolado — deve ser protegido. Antes, a tribo
matava os diferentes. Agora, mudam. Ele rompe a
Lei do Contágio e segura a mão dela. Nada
acontece. A tribo observa. Alguns jogam suas
máscaras no fogo.
Descobrese que ela foi deixada ali bebê, filha
de cientistas que injetaram clorofila humana
antes do fim. Seu corpo troca gás como uma
planta. Ela não fala, mas desenha mapas na areia
— locais onde o solo ainda respira. O plano muda:
não mais fugir, mas regenerar. Ele planta a
primeira semente no seu próprio braço, abrindo a
pele com uma lâmina enferrujada. Sangra muito.
Dorme por três dias.
Acorda sob chuva ácida. Ela está ao lado,
cobrindoo com um tecido vivo feito de folhas
entrelaçadas. O braço dele germina. A infecção
não vem. A tribo começa a cavar poços nos pontos
marcados. Crianças nascem com veios verdes nas
têmporas.
Anos depois, ele caminha nu entre campos de
gramíneas altas, sem máscara, sem medo. Ela some
numa manhã, fundida ao tronco de uma figueira
centenária que não existia no dia anterior. Ele
toca a casca. Sente um pulso. Chora pela
primeira vez desde o Colapso. A última regra cai:
não se protege o outro para salválo. Protegese
para renascer junto.


