A cidade não respira mais. O ar é cinza e pesado,
o asfalto rachado por raízes de árvores que
crescem através dos edifícios abandonados. O sol
ainda nascia, mas já não tocava a pele — a
radiação cortava fundo, e os dias tinham hora
certa: quando o céu escurecia primeiro, era
tempo de buscar abrigo.
No subsolo de um antigo prédio de escritórios,
um garoto de vinte anos encontra um caderno com
a letra do pai morto. Não há nome, apenas um
mapa esboçado com setas para o centro da cidade.
Ao lado, uma frase: “Se quiser viver, vá até o
último lugar onde ele ainda está vivo.”
O segundo dia de chuva radioativa começa. Ele
sai. Em ruínas de um hotel decadente, encontra
um homem sentado à mesa, vestido de terno de
seda manchada, com um relógio parado no pulso.
Os olhos dele não piscam. Diz apenas: “Você é o
último. E eu sou o que restou do que era.”
Nenhum diálogo. Nenhum sinal de reconhecimento.
Apenas o peso do passado. O mentor misterioso
estende um documento com selo de ferro. Um
contrato de herança. Em troca de assumir a linha
de sangue, o garoto recebe acesso a um abrigo
subterrâneo com água potável, medicamentos, e um
sistema de purificação que ainda funciona.
Mas há condição: dentro de 72 horas, ele deve
matar o outro herdeiro — o irmão do pai, que
vive escondido na zona central, alimentandose de
lixo e memórias.
O garoto hesita. O sistema de ventilação falha.
O cheiro de metal úmido invade o ar. O mentor
levanta, segura o revólver que estava sobre a
mesa, e o coloca na mão dele. “Não foi você quem
escolheu isso. Foi o mundo.”
Na terceira noite, ele entra no bunker. Encontra
o irmão — magro, coberto de cicatrizes, com os
olhos de quem viu tudo acabar. Não grita. Não
pede piedade. Apenas entrega uma foto amarelada:
o pai, sorrindo com os dois filhos, no jardim de
uma casa que já não existe.
O garoto abaixa a arma. Não dispara.
O mentor aparece atrás dele, sem pressa. Segura
o cano do revólver e o empurra contra a parede.
“Você escolheu o erro. Agora o mundo inteiro
sabe que você falhou.”
O abrigo fecha. A luz desliga.
Quando o alarme volta a tocar, a porta se abre.
O garoto está sozinho. O irmão não está. O
mentor desapareceu. O sistema de purificação
continua funcionando. Mas agora, cada gota
d’água tem gosto de sal.
Ele senta no chão. Escuta o vento.
O mundo não mudou. Mas algo dentro dele sim.


