A mulher se esconde em uma casa de praia na Zona
Sul, onde o sol não chega até o fundo dos
corredores. Ela não tem nome, mas todos a chamam
de Lívia. Sua última missão foi em 1964, quando
matou um político com um revólver calibre 38. O
dinheiro era bom, mas ela nunca soube por quê.
Agora, anos depois, o mesmo homem ressurge — ou
pelo menos seu filho.
O rapaz chega com documentos antigos e uma carta
selada. Ele diz que seu pai era inocente, que a
família inteira foi enganada. Lívia recusa, mas
ele insiste: "Você precisa ver o que está
acontecendo no Rio". Ela hesita, mas o peso do
passado é mais pesado que o dinheiro.
Ela vai. O encontro ocorre numa mansão em
Ipanema, onde o ar é denso e o som de um rádio
toca samba. O rapaz mostra fotos de sua infância
— crianças brincando com caixas de madeira,
homens com chapéus de abacaxi, mulheres com
vestidos longos. Lívia reconhece a casa.
Reconhece o jardim. Reconhece o homem que matou.
No chão, há um corpo. Não é o político, mas uma
garota de 17 anos, morta com o mesmo revólver. A
polícia não chegou, mas o cheiro de sangue já se
espalhou. Lívia vê o rosto da moça e percebe:
ela era a filha do homem que matou. O rapaz a
olha como se esperasse uma confirmação. Ela não
fala. Só pega o revólver e o coloca na boca.
O sol entra pela janela, iluminando o chão.
Lívia pensa em como tudo pode mudar em segundos.
O mundo dela muda quando o gatilho é puxado. A
casa fica em silêncio. O rádio para de tocar. O
cheiro de sangue permanece.


