A construção do novo centro da República para os
Anos Dourados parou no meio do terreno. O aço
enferrujou sob o sol baixo de 1963, as calçadas
vazias ecoavam com passos que já não existiam.
Um homem caminhava entre os pilares abandonados,
sapatos gastos e olhos fechados por trás de
óculos escuros. Era o Artista Torturado: o nome
colado no mural queimado da praça central, antes
da demolição.
A cidade mudara: a nova lei de mobilidade
forçava todos os cidadãos a registrar cada passo
em um cartão metálico. Sem ele, ninguém podia
cruzar um quarteirão. Ele não tinha cartão.
Tinha apenas o que restara da memória.
Ela estava lá. Na janela do antigo prédio de
escritórios, sentada com um copo de café, como
se nunca tivesse ido embora. O rosto dela era o
mesmo — mas o gesto de beber, o leve tremor dos
dedos, tudo denunciava que ela não fora a mesma.
Ele não falou. Ela não chamou. Apenas o olhar. E
então, a mão dela tocou o vidro. Um sinal. Um
código.
Ele entendeu: a promessa quebrada não foi só de
amor. Foi de fuga. Quando ele a deixou no porto,
dizendo que voltaria com a fama, ela assumiu o
papel de quem o esperava. Mas o sistema havia
mudado: os viajantes registrados tinham direito
à moradia. Os sem registro? Desapareciam. Ela se
tornou invisível. Ele, ao retornar, descobriu
que seu nome fora apagado do cadastro público.
Não existia.
Naquela noite, o cartão dele foi encontrado no
chão da estação. Uma cópia. Um erro. Ele não
podia usar. Então, arrancou a foto de dentro do
bolso. A imagem deles dois, rindo no alto da
Torre do Poder, tirada antes do fim das obras.
Ele a colocou no espelho da casa abandonada.
Era Paixão Obsessiva: não mais de quem ela era,
mas de quem ele pensava que ela deveria ser. Ele
pintou. Cada pincelada era um ato de recuperação.
A tela cresceu — uma cidade inteira, com ela no
centro, sorrindo sob o sol de Brasília.
No dia seguinte, a polícia encontrou o quadro
pendurado na parede do prédio vazio. As luzes da
cidade piscaram três vezes. O sistema bloqueou
todos os cartões da região.
Dentro da casa, o artista estava morto. A paleta
ainda molhada. O último traço: um nome escrito
em vermelho no canto inferior.
A cidade não registrou nada. Ninguém viu. Ainda
assim, alguém começou a pintar o mesmo quadro
nas paredes. Um por um. Em silêncio.
O Enigmático permaneceu.


