O vento corta como lâmina no sítio deserto, onde

só restam paredes calcinadas e um poço seco. A

terra não planta mais; o sol não aquece, apenas

queima. O mundo depois do Colapso não respira —

só sobrevive em silêncio, sob regras escritas em

sangue: ninguém entra ou sai do território sem

autorização do Conselho dos Vigias. As mulheres

são raras. As leais, quase inexistem.

Ela caminha com o coração preso ao corpo, um

frasco de soro de alívio no bolso, sabendo que

cada passo gasta uma dose de vida. Atrás dela, o

sítio tem um nome: "Casa da Luz". Lá, a amiga

ainda estava viva. Um dia antes, foram juntas ao

mercado negro de Brasília Velha, onde o dinheiro

era trocado por fôlego. O conselho descobriu. A

amiga foi levada. Não como prisioneira — como

"recolhida". Porque o sistema exige

sacrifícios.

Exige traições.

Na madrugada do terceiro dia, ela corta a cerca

elétrica com fio de cobre de um rádio abandonado.

Derruba a câmera de vigilância com um pedaço de

vidro. Entra no abrigo subterrâneo onde os

vigias guardam as que "dão serviço" — as que

trabalham nas minas de oxigênio, escondidas sob

a cidade morta. Ela encontra a amiga presa por

correntes de aço, os olhos vazios, a boca cheia

de poeira. Uma tatuagem na nuca: "Traidora".

A amiga tenta sorrir. Não há palavras. Só um

gesto: aperta o pulso da outra. No mesmo

instante, o alarme soa. Os vigias atacam. Ela

pega o frasco de soro — seu último recurso — e

joga no rosto do líder. O cheiro de enxofre

invade o ar. Ele grita, cai. Outros correm. Ela

arranca a corrente, puxa a amiga, empurra para

fora do túnel. Correm entre os escombros, o céu

cinza sobre elas, o vento ofegante.

No limite do território, a amiga desmaia. Ela a

carrega até o poço. Rompe a estrutura de madeira.

Desce com ela, fundindo o frasco de soro ao

ferimento do pescoço. O líquido começa a

funcionar — o oxigênio volta. A amiga abre os

olhos. Olha para ela. Não diz nada. Apenas

segura a mão, e lá dentro, o calor retorna.

Dali em diante, o sítio não será mais um lugar

de espera. Será um nome novo. Um novo começo.

Mas o ar ainda é veneno. E a traição? Está no

sangue de quem viveu.