A cidade respira em calças de borracha. O sol

não brilha mais; só os postes verdes queimam no

horizonte, emitindo radiação pulsante. As

pessoas andam sob túneis de fibra, cobertos de

mofo, com cartões de acesso escaneados a cada

cinco minutos. Quem falha, desaparece.

Ela era uma das poucas que ainda carregava o

nome “Feminino” na identidade oficial — uma

categoria antiga, suprimida após a Segunda

Ruptura. Agora, nas ruas subterrâneas, a palavra

é proibida. Mas ela o usa. Sem aviso. Como um

código interno.

O político corrompido chegou em um caminhão sem

placa. Vestia terno de lona selada, com o

símbolo da Comissão de Reintegração gravado no

ombro. Prometeu segurança. Em troca, exigiu duas

coisas: a exclusão de todos os registros de

sangue comum e a entrega dos “nãocitadinos” aos

campos de limpeza. Ele sabia onde estava o irmão

dela. Sabia porque já havia entregado outros

antes.

Quando o sistema de ventilação falhou no setor

B7, ele escolheu o local para morrer. Uma sala

com três saídas, todas bloqueadas por sensores

de calor. A única via de escape era pelo túnel

de esgoto. Ela entrou primeiro. Ele seguiu atrás.

No meio do trecho, o chão rachou. Um tubo

explodiu. Ar quente jorrou. Ele gritou. Não

ouviu. Só sentiu o peso do corpo dele caindo

sobre o seu.

No dia seguinte, o sistema anunciou: “Novo

índice de pureza alcançado.” Eles fizeram isso

para garantir que ninguém lembrasse. Mas ela viu

o rosto dele na câmera de emergência. Viu a mão

dele estendida. Viu o nome que ele escreveu no

chão com cinza: Você viveu.

A vingança não foi planejada. Começou quando ela

usou o último cartão de acesso do político para

abrir o arquivo secreto do Abate de 1989. Lá

estava o registro: “Caso 004 – Herdeiro de Linha

Vermelha – executado por traição de parentesco.”

O nome do irmão estava entre os mortos. O nome

do responsável estava assinado.

Ela entrou no bunker principal durante a

manutenção. Desligou os geradores. Acendeu o

sistema de alarme. Quando os guardas entraram,

encontraram o politico preso ao painel central,

com os dedos cravados nos botões. O sistema

começou a recriar o vídeo da execução do irmão.

Tudo em tempo real. Tudo visível.

A tensão não se rompeu com um ataque. Rompeu com

silêncio. O sistema parou. O ar parou. E então,

pelas luzes frágeis, ela saiu. Deixou o corpo do

político pendurado. Deixou o arquivo aberto.

Deixou a cidade saber.

Ninguém vai apagar isso.

Ninguém vai esquecer.