A cidade está morta há sete anos. O céu não tem
cor, só cinza em suspensão. A primeira regra do
pósapocalipse: ninguém pode respirar sem máscara.
A segunda: quem esquece o nome de alguém morre
junto.
Ela entra no bunker sob o antigo Mercado
Municipal. Pés descalços sobre concreto frio.
Máscara de couro rachado, sinal de quem já
violou a lei da memória. As paredes têm sinais
em tinta vermelha: nomes de mortos. Um nome
brilha mais: Luciana.
O Mentor Misterioso espera na sala de controle.
Sem rosto visível, apenas um crachá de ferro com
o símbolo da República Velha — um círculo
quebrado. Ele fala sem mover os lábios. “Você
tem 12 horas. O sistema vai limpar todos os
registros de sangue familiar. Se não recuperar o
nome da menina antes, ela será apagada do mapa.”
Ela não sabe por que o nome dela está ali. Só
sabe que jurou protegêla. Uma promessa feita no
dia em que o ar começou a matar.
No subsolo, as luzes piscam. Ela encontra o
arquivo. Fotos de crianças com máscaras. Uma
delas sorri. O rosto é o dela, aos sete anos. O
nome ao lado: Ana Clara.
Sua mente trava. O sistema exige que ela escolha:
lembrar ou viver.
Ela pressiona o botão. Uma onda de dor atravessa
o crânio. O nome volta. Mas também volta o
momento em que, na fuga, empurrou Ana Clara para
dentro de um tubo de ventilação e fechou o
acesso. A promessa era salvar a criança. O
sacrifício foi deixála viva sem memória.
O sistema anuncia: “Memória restaurada. Linhagem
válida. Novo registro: herdeira.”
Na superfície, o céu começa a mudar. Um raio de
sol rasga o cinza.
Ela tira a máscara.
O ar entra.
Ela não sente dor.
Apenas o peso de saber que o que salvou foi uma
mentira.
A cidade não respira.
Mas ela, sim.


