A cidade respira cinza. O ar corta os pulmões
como vidro. Nas ruínas de um antigo metrô, uma
mulher com olhos de pedra abre os olhos — em um
rosto que não reconhece. As mãos são mais finas,
as marcas na pele não são suas. Ela tenta gritar,
mas a garganta responde com palavras que não
pronunciou.
No dia anterior, tinha sido outra. Uma jovem da
elite da Colônia Sombra, entregue ao sistema de
transplantes corporais por escolha ou força.
Agora, a memória dela se fragmenta: sonhos de um
nome que não pertence, sons de uma voz que não
foi sua. O sistema exige que todos mudem de
corpo a cada 365 dias — um ciclo sem volta.
Ela encontra o Mentor Misterioso nas galerias
subterrâneas. Ele não fala, apenas mostra um
relógio marcado com datas de mortes. Um dos
ponteiros aponta para hoje. A moça que morreu
ontem está dentro do corpo dela. E o corpo dela?
Já foi entregue a alguém.
Na caverna de cristal fundido, ele tira uma
placa de metal do peito dela. Nela, gravada com
tinta vermelha: “Herdeira do Primeiro Pacto”. A
verdade explode: ela não é uma sobrevivente. É
uma peça no jogo há séculos. Cada troca de corpo
não é mudança — é reposição. O sistema não
recompõe pessoas. Reconstitui almas perdidas.
Ela corre. Os corpos desaparecem em nuvens de
poeira quando abandonados. Um alarme soa. As
portas se fecham. Em menos de vinte segundos, o
sistema detecta um erro: dois corpos com a mesma
marca genética. Um deles não deveria estar vivo.
O Mentor entra no corredor. Não com armas. Com
um ritual antigo. Ele aperta a mão dela contra
um painel de ossos humanos. O corpo dela começa
a derreter — não em sangue, mas em memórias.
Todos os nomes que foram seus. Todas as vidas
que ela nunca viveu.
Quando o sistema finalmente ativa o ciclo de
substituição, ela está ausente. O corpo dela
ainda está lá — com a etiqueta “Em uso”. Mas a
mente que o habitava desapareceu. Não foi
eliminada. Foi lembrada.
No silêncio do túnel, uma nova menina abre os
olhos. Tem o mesmo rosto. Mesmo nome. Mesmo medo.
E a primeira coisa que sente é o cheiro de café
queimado — algo que nunca existiu antes.
O mundo ainda gira. Mas agora, sabe que ela está
entre os vivos.


