A plataforma central de Copacabana afundou três

anos antes, mas o sistema de sustentação

flutuante mantém o distrito suspenso, ligado por

cabos de energia pulsante ao fundo do Atlântico.

O ar é sempre úmido, os telhados são colunas de

vidro antirradiação, e todos os cidadãos

carregam chips de conformidade que registram

emoções excessivas como "risco social".

A mãe desapareceu durante o chamado Ciclo de

Purificação — um dia anual em que as autoridades

removem "cargas emocionais indesejadas"

de quem

não passa nos testes de estabilidade. Ela foi

levada sem aviso, apenas com um sinal vermelho

piscando na parede do apartamento: _NÃO SE

ESCONDA_.

O filho, exengenheiro de sistemas de manutenção,

sabe que ela foi pega porque cantava canções

antigas no banho — música proibida desde 2075.

Ele começa a sabotar o circuito de segurança

usando frequências subliminares que acionam o

código de emergência das famílias. Cada

tentativa faz com que seu próprio chip registre

um aumento de ansiedade, e ele perde pedaços da

memória: primeiro o nome da irmã, depois o

cheiro do café da manhã.

No último dia do ciclo, ele entra no Núcleo

Central sob disfarce de funcionário. Atravessa

corredores onde paredes se fecham com sons de

gritos, e encontra a mãe presa em um

compartimento de ressonância. Ela está sentada,

olhos abertos, mas imóvel — seus músculos

congelados pela dor de ter sido privada de

emoções por 36 horas. O sistema exige que ele

diga uma frase verdadeira para liberar o código

de liberdade.

Ele fala: “Eu a amo mais do que minha própria

identidade.”

O sistema aceita.

Mas a libertação vem com custo: o chip dele

explode, e ele vê tudo em preto e branco. Não

lembra mais de nada — nem de si mesmo, nem dela.

No dia seguinte, um novo registro aparece no

terminal público: _Mãe e filho reencontrados.

Redenção garantida._

Ninguém sabe que ele não se lembra do rosto da

mãe.

Ninguém sabe que o sistema já havia apagado a

verdade.

A cidade continua flutuando.

E a memória, mesmo perdida, ainda respira.