A cidade flutuava sobre pilares de concreto
reciclado, cada bairro dividido por zonas de
acesso genético: os "puros" tinham direito a
habitação digna, os "filtrados" viviam nas
bordas, com cartões de sobrevivência. No centro
da zona de controle, uma mulher de cabelo
cortado curto e vestido de linho cinza caminhava
entre hologramas de registros familiares. Seu
nome era Lúcia, mas no sistema diziase "Herdeira
7C4".
Ela havia sido criada como filha adotiva de uma
família de elite, sem memória de origem. Até que
um dia, o sistema detectou um erro: seu DNA não
combinava com os dados do registro paterno. A
autoridade sanitária entrou em alerta automático
— um caso de "contaminação genética", punível
com desativação do direito de cidadania.
Naquela noite, o guardacostas que a seguia desde
a infância, um homem de silêncio absoluto e
olhos sempre vigilantes, fez o primeiro
movimento errado. Ele abriu um arquivo bloqueado.
O documento mostrava que ela era filha de uma
cientista executada durante a Revolta dos
Genealogistas — uma rebelião contra o sistema de
controle de sangue. E o nome dele? Era o mesmo
do principal acusado na investigação.
O sistema exigiu a eliminação imediata. Mas ele
não a entregou. Em vez disso, levoua para o
antigo subsolo da Universidade Central, onde
ainda funcionavam máquinas antigas de recriação
celular. Usando amostras clandestinas, ele
reconstruiu seu histórico genético completo. O
resultado: ela era legítima herdeira de uma
linha de resistência que havia sido apagada.
No dia seguinte, o sistema anunciou que a
"herdeira 7C4" estava oficialmente
extinta. Sua
identidade foi cancelada, seu nome apagado das
listas públicas. Mas em um túnel subterrâneo,
sob um som de rádio antigo tocando samba de
violão, ela olhou para o homem que tinha traído
todos os seus sonhos de segurança e disse apenas:
“Vocês me fizeram esquecer quem eu sou. Agora,
eu me lembro.”
O guardacostas não respondeu. Deu um passo atrás.
Ela pegou o canudo de cristal que ele usara para
acessar o banco de dados e jogouo no chão. O som
ecoou como um sino de sepultura.
Dali em diante, o mundo mudou. Não pela
revolução. Pelo simples fato de que uma mulher
que deveria estar morta começou a caminhar de
novo.


