No ano de 2027, em São Paulo, a empresa Chronos
Bio mantém o único relógio de troca corporal
funcional: um implante neural que, ao ser
ativado, transfere a consciência entre dois
corpos por exatamente 72 horas. A regra é
absoluta — só uma troca por vida. Ninguém sabe
por que. Apenas que quem tenta repetir
desintegra.
Ela era Lívia Ribeiro, filha do dono da Chronos,
vestida em sedas importadas, mas com os olhos
sempre no jardim da casa antiga, onde ele, Marco,
o engenheiro que construiu o relógio, passava
horas em silêncio. Ela amava ele desde os
dezessete anos. Ele nunca a viu. Só via o
dinheiro que ela representava.
Ele sabia que ela o amava. Mas não ousou. Tinha
medo do que a família faria. Então, quando ela
se casou com o herdeiro da rival, um homem que
usava o relógio para espiar os concorrentes, ele
roubou o protótipo final — e fugiu. Ela não
chorou. Só parou de comer.
Na manhã em que ele morreu, o corpo dele já
estava em colapso por um defeito no implante que
ele mesmo criou. O médico disse: “Não passa da
meianoite.” Lívia entrou no laboratório
subterrâneo da Chronos, sem alertar ninguém. O
corpo dela estava no quarto, dormindo. O corpo
dele, no chão, com os olhos abertos, ainda
respirando.
Ela ativou o relógio.
A troca ocorreu. Ela sentiu o cheiro de suor
velho e café barato. Ele sentiu o perfume de
jasmim e o peso da herança. Ele tentou falar.
Não conseguiu. Ela pegou a mão dele. Não disse
nada. Só apertou.
Naquela noite, o corpo de Lívia — agora dentro
do corpo dele — ligou a imprensa. Mostrou os
arquivos: o relógio não era para troca. Era para
extinção. Ele foi criado para matar quem ousasse
amar além do permitido. A Chronos já tinha
eliminado quatro casais assim. Ela era a quinta.
Ele, o sexto.
Na manhã seguinte, o corpo de Marco, agora o
dela, foi encontrado no telhado do prédio da
Chronos. Sem ferimentos. Sem trauma. Só o rosto
sereno, como se tivesse finalmente entendido.
O corpo de Lívia, dentro do corpo de Marco,
entrou no escritório do pai. Deu o comando final:
desligar todos os relógios. E então, sem dizer
uma palavra, apertou o botão de autodestruição
do implante.
A cidade inteira ouviu o estalo. Um único som.
Nenhum grito. Nenhuma lágrima visível. Só o
silêncio pesado de quem sabe que o amor, nesse
mundo, nunca foi permitido — e quem o escolheu,
pagou com o corpo que não era seu.


