O trem passa por São Paulo com as janelas

fechadas. A mulher sentada no banco da frente

não reconhece o próprio rosto no reflexo do

vidro. O jornal na mesa mostra uma foto dela,

mas a assinatura é de outra pessoa. Ela não sabe

como chegou ali, nem por que seu nome foi

riscado da lista de moradores do bairro.

Na estação, um oficial do Exército a aborda. Ele

lhe entrega um documento: "Identidade

transferida. Você não existe mais." A carta

menciona uma "reforma de registros" promovida

pelo novo governo, que reescreveu a história

para eliminar os que se opuseram ao poder. Ela

tenta voltar para casa, mas a porta está

trancada. Os vizinhos não a reconhecem. Seus

documentos são falsos.

No centro da cidade, ela encontra um antigo

livro de registro de nascimentos. Nele, descobre

que seu nome foi apagado há meses, substituído

por outro. Um homem que a viu na rua diz: "Você

era uma das que desapareceram. Ninguém fala

delas." Ela entra em pânico. Sua vida inteira é

uma mentira.

No quarto de um hotel, ela escreve uma carta com

o nome que lhe foi dado. Enquanto o papel secava,

ouviu um barulho no corredor. Uma figura se

aproximou, segurando uma chave. "Você não

deveria estar aqui", disse a voz. A mulher

recuou, mas a figura abriu a porta e revelou uma

sala cheia de arquivos. Todos tinham seu nome.

Ela saiu da cidade na madrugada. No caminho,

encontrou um grupo de pessoas que também haviam

sido apagadas. Eles a chamaram de "a

primeira".

O líder, um homem com cicatrizes de prisão,

explicou: "Você foi real antes de ser removida.

Isso importa."

Ela voltou à capital, mas agora carregava uma

nova identidade. Em uma praça, leu uma notícia:

"Novo presidente anuncia reforma da justiça.

Tudo será refeito." Ela sorriu. O mundo tinha

mudado, mas ela não.