A pedra do templo foi enterrada em 1892, quando
o último sacerdote da linhagem dos Lopes selou a
cidade com sangue de criança. O ritual fechou o
portal entre mundos — mas não apagou o contrato.
No ano de 1927, uma jovem escritora encontra o
diário do avô, revelando que sua família é
custodiada por um segredo: cada geração tem um
“guardacostas devoto” que jurou proteger a linha
até o fim. Ele não escolheu isso. Nasceu para
obedecer.
Quando ela entra no salão subterrâneo, o ar pesa
como chumbo. A pedra vibra sob seus pés. Um
sinal se acende: o tempo de sangue está marcado.
Ela tem sete dias para entregar um corpo vivo ao
altar — ou todos os membros da linhagem morrerão
antes do amanhecer do oitavo dia.
O guardacostas aparece sem nome, sem passado,
apenas olhos que não piscam. Sua mão se fecha
sobre o pulso dela como ferro. Ele não fala. Só
segue.
Na terceira noite, ele começa a desaparecer aos
poucos — primeiro os dedos, depois o braço, como
se o tempo o estivesse roubando. Ela descobre: o
pacto exige sacrifício humano, mas também exige
paixão obsessiva. Ele só pode ser guardião
enquanto a ama verdadeiro. E agora, acredita
nela.
No quinto dia, ele se mata com uma faca de vidro,
cortando a própria garganta. Sangue escorre
sobre a pedra. O mundo treme. O ritual não foi
cumprido.
Mas ela grita. Grita com toda força. Não pelo
medo. Pelo amor.
A pedra se racha. Do buraco brota luz vermelha.
Os corpos dos mortos da linhagem voltam à vida —
não como homens, mas como fantasmas que carregam
memórias de quem foram. E todos olham para ela.
Na manhã do sétimo dia, ela caminha sozinha até
o topo do morro. O sol nasce. O antigo templo
desaba.
O novo mundo começa assim: sem regras, sem
rituais, sem herdeiros.
Ela é a última.
Mas não é a única.


