A cidade respira em silêncio. O sol bate nas
janelas do escritório, mas a luz não chega ao
fundo dos olhos de Clara. Ela é uma detetive
cínica, acostumada a corpos na sarjeta e
mentiras bem contadas. A última carta de cliente
chega com um envelope azulescuro, selo de uma
época que não existe mais: 1897.
O cliente pede que ela localize uma mulher
chamada Isaura, desaparecida há vinte anos. A
ficha tem data de nascimento, endereço, nome do
pai — tudo em português arcaico. Clara ignora o
detalhe, até ver o retrato. É ela mesma, com os
mesmos olhos, mesmo nariz. Mas isso é impossível.
Ela não tem passado. Não tem família. Só
trabalho e dinheiro.
Clara começa a seguir pistas. O endereço no
papel leva a uma casa abandonada no centro, onde
a terra ainda guarda ruínas de uma civilização
que nunca foi registrada. As paredes têm
inscrições em língua desconhecida, mas Clara
reconhece palavras. Ela as escreve, e a tinta
sangra. Um aviso: Nunca olhe para trás.
Ela vai ao arquivo público. Os registros
históricos mostram que, em 1897, uma mulher
chamada Isaura morreu em um acidente. O corpo
foi enterrado, mas o nome foi apagado. Clara
pega um jornal antigo. A manchete diz: "Mulher
desaparecida retorna como fantasma". Ninguém
acredita. Todos sabem que o tempo não volta.
No quarto escuro do apartamento, Clara abre o
espelho. Uma figura se move atrás dela. Ela gira.
É ela. Mas com vestidos de seda e joias de ouro.
A mulher fala, sem boca: "Você não é real. Você
é a versão que eu escolhi não ser." Clara tenta
gritar, mas a voz sai de outra boca. Ela cai no
chão, e o espelho se quebra.
No dia seguinte, o cliente aparece. Ele tem o
mesmo rosto de Clara, mas os olhos são vazios.
"Você me encontrou", ele diz. "
Mas eu já estou
morto." Ele puxa um revólver e atira. Clara
sente o impacto, mas não cai. Ela se vê no
espelho, de novo. O tempo está se desfazendo.
Ela não sabe se é a verdadeira ou a falsa. Mas
agora, ela também tem um passado. E ele não pode
ser esquecido.


