A cidade flutuava em níveis de arcoíris,

sustentada por reatores que convertiam ventos em

energia. A República Velha tinha se transformado

em uma utopia tecnocrata, onde cada cidadão

recebia uma quota diária de tempo.

Ela era chamada de "Esposa Submissa", mas não

por escolha. O contrato matrimonial exigia que

ela fosse silenciosa, obediente, e nunca

questionasse o marido. Ele era um engenheiro do

Tempo, responsável por ajustar os fluxos das

zonas horárias.

Um dia, ele trouxe para casa um envelope com um

código de acesso. Ela não deveria abrilo, mas o

fez. Dentro estava um vídeo: um homem idoso, seu

pai, desaparecido há dez anos, dizendo que o

sistema do tempo era fraudulento. Que os

reatores não eram limpos, mas coletavam memórias

humanas para alimentar a máquina.

A lei proibia discutir o funcionamento dos

reatores. Qualquer suspeita era punida com a

perda de tempo. Ela foi acusada de "desordem

temporal" e presa em um centro de reeducação. Lá,

descobriu que muitos já haviam tentado revelar a

verdade — e todos desapareceram.

No interrogatório, o marido a encarou. Ele sabia.

E não a protegeu. Em vez disso, ofereceu uma

proposta: ajudar a corrigir o sistema em troca

de sua liberdade. Ela recusou. A reação foi

imediata: seu tempo foi reduzido em 12 horas.

Naquela noite, ela fugiu. Usou um dispositivo

clandestino, um antigo relógio de bolso que seu

pai lhe deixara. O aparelho a levou ao nível

mais baixo da cidade, onde os reatores eram

visíveis — grandes tubos que absorviam o cérebro

das pessoas.

Ela entrou. Encontrou o pai, vivo, mas fraco.

Ele a abraçou e disse que a verdade era que o

tempo não era um recurso, mas uma prisão. A

sociedade inteira era mantida em equilíbrio pela

coleta de consciências.

Ela saiu, mas não voltou para o marido. Em vez

disso, espalhou o vídeo. No dia seguinte, o

sistema falhou. Todos perderam tempo. E ela, por

ter usado o relógio, ganhou um dia extra.

O mundo não mudou naquela noite. Mas ela, sim.