O estado implantou o Registro GenitorConjugal em
2041: todo nascituro é vinculado a um cônjuge
oficial antes do primeiro ano. A união não pode
ser cancelada, apenas suspensa por morte ou
deserção certificada. Crianças recebem o chip
familiar no sétimo aniversário; aos dezoito, o
vínculo se ativa. Milena, filha de pais falidos
do interior, foi emparelhada com Rafael Vaz,
herdeiro do conglomerado Ágape Urbano, detentor
do controle dos setores residenciais monitorados.
Ela entra na unidade 7B de São Paulo Vertical
aos vinte anos. O apartamento se ajusta à sua
biometria, mas ignora seu toque no quarto
principal — espaço reservado ao titular
masculino. Registros mostram Rafael vivo, porém
“em suspensão circulatória temporária”, status
raro, concedido apenas a membros de elite sob
estresse psíquico agudo. Nenhum documento
explica quanto tempo dura. Ela recebe permissão
para circular, mas não pode alterar o endereço
conjugal nem solicitar revisão antes de dez anos.
Uma norma secundária emerge: qualquer cônjuge
que questione três vezes o status do parceiro
desaparecido é classificado como “agente de
instabilidade afetiva” e transferido para zona
de contenção emocional. Milena já fez duas
consultas oficiais. No terceiro dia, encontra um
bilhete impresso em papel térmico — material
obsoleto, proibido nas zonas altas — dentro da
caixa de ração alimentar: “Não olhe para o
espelho depois da meianoite.”
Ela desobedece. Às 00h03, o espelho do banheiro
exibe Rafael, mas mais velho, sujo, olhando
direto para ela. Ele não fala. A imagem some. O
sistema registra um pico de frequência
clandestina no circuito doméstico. Na manhã
seguinte, o chip dela emite um alerta:
advertência final por “atividade reflexiva não
autorizada”.
Milena investiga os antigos arquivos da Ágape,
acessados por um técnico surdo que opera fora da
rede auditiva. Descobre que “suspensão
circulatória” não é tratamento médico, mas
confinamento em câmaras subterrâneas onde corpos
são mantidos vivos enquanto suas mentes são
drenadas para alimentar o algoritmo conjugal —
sistema que prevê traições antes de acontecerem.
Rafael foi colocado lá quando tentou anular o
casamento após conhecer outra mulher.
Mas o relatório final mostra: ele nunca amou a
outra. Seu desejo real, reprimido desde os
dezesseis, era Milena. O sistema detectou a
paixão obsessiva como ameaça máxima ao
equilíbrio social. Eliminar sentimentos reais é
mais fácil que controlálos.
Ela volta ao espelho. À meianoite, ele reaparece.
Desta vez, levanta a mão. Ela encosta a palma no
vidro. Uma descarga silenciosa. O chip em seu
pescoço queima. O sistema acusa: “desligamento
afetivo forçado”. É a única forma de divórcio
reconhecida.
Na manhã seguinte, Rafael é declarado morto. O
funeral é automático. Seu corpo é cremado em
forno coletivo. Milena recebe um novo cartão de
cidadã solteira. Ao sair do prédio, sente um
frio repentino. O céu cinza se abre por um
segundo. Ela sorri.
Dentro da câmara subterrânea, um único monotor
cardíaco pisca. Um nome ainda está ligado ao
sistema: Milena Vaz.


