A cidade cresceu sobre os ossos do antigo. O ar

agora tem gosto de sal e incenso, como se a

atmosfera tivesse absorvido o peso dos mortos

que nunca foram enterrados. Ninguém mais morre —

apenas some. Os corpos desaparecem no meio da

noite, deixando apenas uma mancha úmida no chão,

como se o solo os tivesse engolido.

A curandeira não tem nome. Só sabe que há 17

anos foi escolhida para vigiar o limiar entre os

vivos e os que não deveriam estar mais aqui. O

sistema é claro: ela não pode tocar nos

desaparecidos, nem falar com eles, nem sequer

olhar direto nos olhos de quem já está entre os

ausentes. Quebrar essa regra significa perder o

próprio corpo ao tempo que o espírito ainda

resiste.

No décimo sétimo dia de outubro, o primeiro

silêncio durou mais de três horas. Nenhum grito,

nenhum som de vidro quebrado, nenhum lamento.

Apenas o ruído das folhas secas sendo arrastadas

pelo vento, como se a cidade estivesse

respirando pela última vez.

Ela viu o primeiro fantasma com rosto de criança.

Não estava na lista. Não havia sido registrado.

Caminhava entre os prédios com os pés descalços,

segurando um balão azul que não explodia. Quando

tentou afastar o olhar, o balão se inflou,

encheu o ar com um chiado agudo, e o chão

começou a rachar.

Na manhã seguinte, todos os meninos da periferia

tinham sumido. Não havia sangue, não havia

resistência. Só o vazio. Ela foi chamada para o

centro ritual, onde as almas são contidas por

cordas de lã negra. Mas as cordas se queimaram

sozinhas.

A verdade veio em um momento de dor física: ela

não era guardiã. Era um dos últimos que ainda

podiam ser lembrados. O mundo só mantinha os

vivos enquanto houvesse alguém para lembrar dos

mortos. E quando a memória falha, o sobrenatural

se torna realidade absoluta.

No quarto dia após o colapso total, ela parou de

caminhar. Ficou sentada no degrau de uma igreja

sem crosta, o corpo frio, os olhos abertos. As

pessoas passavam por ela sem ver. O vento

levantou seu cabelo. Um balão azul caiu aos seus

pés.

Ninguém mais lembrou de sua existência. Mas o

silêncio, dessa vez, foi o último a se ir embora.