O barão perdeu o título, mas não a casa. A

mansão no bairro da Lapa ainda tem as colunas de

mármore trazidas da Itália, mas os telhados

gotejam, os criados sumiram, e o café que antes

financiava o Congresso agora apodrece nos

armazéns. Ele não é mais rico. Só é o último que

ainda acredita que a magia existe.

Na infância, ele viu o avô beber água da fonte

do jardim e fazer chover em pleno verão. Na

adolescência, ouviu o pai sussurrar: “A cidade

vive porque nós a alimentamos.” Não era metáfora.

A magia urbana não era feitiço — era contrato.

Cada gota de café vendido alimentava uma

entidade que vivia nos esgotos, uma deusa de

raízes e ferrugem que trocava prosperidade por

sangue de nobres. Ele assinou o pacto com o

próprio sangue no dia do casamento, quando a

noiva morreu de febre antes da cerimônia. A

magia não matou ela. Ela foi o primeiro

pagamento.

Agora, em 1923, a água da cidade está turva. Os

poços secam mesmo na chuva. As crianças não riem

mais nas ruas. O prefeito mandou fechar os bares

da Praça da República — ninguém quer beber algo

que sabor de sangue. Ele sabe por que. A

entidade está faminta. E ele não tem mais café

para dar.

Na noite em que o último saco de grãos foi

vendido por metade do preço, ele foi até a fonte.

Tirou a gravata, desabotoou a camisa, e cortou o

braço com a navalha do avô. A água escureceu. A

entidade respondeu. Mas não foi com chuva. Foi

com um gemido que fez os vidros da casa estalar.

Ela não quer café. Quer o que ele ainda tem: a

memória da infância, a voz da esposa morta, o

nome que carregava antes de ser barão. Quer a

alma que ele esqueceu que vendeu.

Ele não morreu. Não se transformou. Apenas se

apagou. No dia seguinte, a mansão foi invadida

por mendigos que encontraram o corpo sentado na

sala de jantar, com os olhos abertos e as mãos

limpas. Ninguém tocou nele. Todos sabiam: ele

não era mais homem. Era a última oferenda. E a

cidade, pela primeira vez em quarenta anos,

bebeu água limpa.