O trem de luxo parou na estação de Santo Amaro
em 1956, mas ninguém desceu. A cidade não
reconhecia mais os nomes das ruas, as placas
tinham sido removidas com o novo plano urbano. O
ar cheirava a concreto fresco e café torrado,
misturado ao suor de milhares que construíam
Brasília sob sol de verão.
Na plataforma, ele apareceu: camisa branca
impecável, paletó de linho, olhar de quem já
tinha perdido o mundo inteiro. Seu nome era
Eduardo, herdeiro do maior cafezal da região,
mas agora só havia uma lembrança viva — o rosto
da mulher que nunca quis aceitar como esposa.
Ela estava ali. No mesmo lugar onde ele a
empurrou para dentro de um carro há quinze anos,
quando o pai ordenou que fosse embora antes do
casamento forçado com a filha do ministro. Agora
ela trabalhava como secretária na Comissão de
Urbanização. E sorriu.
Não foi um gesto de afeto. Foi um ato de cálculo.
Ela sabia que ele voltaria. Sabia que ele iria
procurar o documento escondido no fundo do baú
do avô, o que provava que o negócio do café não
fora vendido — apenas "reestruturado" com
documentos falsos.
Na noite seguinte, o prédio onde morava foi alvo
de incêndio. Ninguém viu a chama começar. Mas
todos ouviram o grito que saiu da janela do
segundo andar.
Eduardo correu até lá. Encontrou a mulher com o
braço queimado, tentando tirar um caderno de
dentro do fogareiro. Nele, anotações sobre
desaparecimentos de operários, pagamentos feitos
em espécie, transferências bancárias sem
registro. E uma foto: ele, aos dezessete anos,
sorrindo ao lado de um homem que não deveria
estar vivo.
A polícia chegou. Ele foi levado. A comissão de
urbanização anunciou um novo projeto: a
demolição total da antiga zona central. Os
prédios foram derrubados com explosivos no dia
seguinte.
Mas o trem que deveria partir às 7h15 não saiu.
O sistema ferroviário foi declarado obsoleto. A
nova capital crescera tão rápido que a linha
histórica ficou inútil.
Na manhã seguinte, a mulher foi encontrada
sentada no meio dos destroços, ainda segurando o
caderno. Sorrindo.
O mundo mudou. Não pela modernidade. Pela
verdade.
Eduardo não voltou para casa. Ele desapareceu.
Ninguém soube mais dele.
Só restou um bilhete pregado na parede do
escritório: “A vingança é um trem que não para.
Nem mesmo quando o mundo inteiro muda.”


