O automóvel preto parou na esquina da Avenida

Paulista, motor ligado, luzes apagadas. João,

guardacostas devoto do senador Borges, esperava

com o olhar fixo no prédio onde Clara trabalhava

como secretária. O relógio na parede do hall

marcava 19h47. Ele sabia que ela sairia em cinco

minutos, como sempre.

A rua estava vazia, mas o ar vibrava com a

tensão do verão. João não tinha certeza se era o

calor ou a ansiedade. Havia três dias que

evitava falar com ela, desde a última vez que a

viu sorrindo para outro homem no jantar da

família Borges. O senador havia lhe dado uma

ordem clara: mantêla longe, sem contato, sem

perguntas. João obedecia, mas o coração batia

forte demais.

Às 19h52, Clara saiu. O vento levantou a saia

dela, e João sentiu um nó no estômago. Ela olhou

para o lado, como se esperasse alguém. Não o viu.

Ele ficou imóvel, segurando o revólver no bolso,

conforme combinado com os homens do senador. Era

o plano: interceptála antes que fosse pega por

outros olhos.

Mas o plano falhou. Um grupo de quatro homens

emergiu da esquina, correndo em direção a ela.

João reagiu instintivamente, pulando em frente,

atirando duas vezes. O primeiro homem caiu, o

segundo tropeçou. Clara gritou, caiu no chão, e

João correu para ajudála. O terceiro homem sacou

uma faca, mas João o derrubou com um chute na

cabeça.

O senador Borges recebeu a notícia na sala de

reuniões. Seu rosto era uma máscara de raiva.

"Você traiu sua missão", ele disse,

apertando o

punho no balcão. João não respondeu. Sabia que a

punição seria severa. Mas quando Clara foi

levada ao hospital, ele soube que não poderia

mais fingir.

No dia seguinte, o senador mandou um recado: "Se

você continuar a vêla, a morte será rápida. Se

você a deixar, ela viverá, mas não como antes."

João leu o bilhete com os dedos tremendo. A

regra era clara: proteger o senador, mesmo que

isso significasse destruir tudo o que amava.

Clara foi transferida para uma casa no interior,

sob vigilância constante. João foi afastado da

cidade, designado para uma base rural. Mas ele

não desistiu. Noite após noite, ele escrevia

cartas, escondidas entre os documentos de

entrega. Ela respondia, sempre com a mesma frase:

"Eu te amo, João, mas não posso te ver."

A regra do senador era inflexível: qualquer

tentativa de contato seria tratada como traição.

E João sabia que, se fosse pego, não haveria

perdão. Mas ele também sabia que não podia viver

sem ela.

No dia do aniversário de 30 anos de Clara, João

chegou à casa. O porteiro o reconheceu, mas não

o impediu. Ele entrou, encontroua na sala,

vestida de branco, com um bolo de casamento no

centro da mesa. Ela o viu, e por um momento,

tudo pareceu possível.

"Você veio", ela sussurrou.

Ele acenou com a cabeça, mas não se aproximou.

"Não posso", disse, a voz trêmula.

"Você sabe

que não posso."

Ela sorriu, mas os olhos estavam cheios de

lágrimas. "Então me deixe ir embora com

você."

João olhou para a porta, para a vida que poderia

ter sido. E então, lentamente, abriu os braços.

A regra era clara: proteger o senador, mesmo que

isso significasse destruir tudo o que amava. Mas

nesse momento, ele escolheu outra regra. A que

dizia que alguns amores valem mais que qualquer

poder.