A casa de taipa e madeira maciça, com janelas
arqueadas como olhos cansados, permaneceu
fechada desde o enterro do pai. O ar dentro
cheirava a mofo e café recémpassado — um hábito
que ele nunca soube que a mãe mantinha por trás
da fachada de silêncio. Ele voltou com o nome de
herdeiro registrado no cartório de São Paulo,
mas o povo do bairro já o apontava como estranho:
cabelo curto, terno de alpaca, mão sem
cicatrizes de enxada.
Na manhã seguinte, a irmã surgiu na varanda com
um chapéu de palha e um cesto de frutas murchas.
Ela não disse “bom dia”. Só encarou os sapatos
dele, sujos de terra do interior. No mesmo
instante, o relógio da sala parou. Ninguém
reparou, mas o sistema de alarme da fazenda —
instalado por decreto do presidente Prudente de
Morais — não havia sido ligado desde 1902. Ainda
assim, o som de uma campainha soou no quintal.
Era uma ordem antiga: todo filho de cafeeiro
tinha de prestar contas ao Conselho dos
Agricultores antes de tocar qualquer bem.
Ele tentou abrir o sótão. A tranca estava
trancada com um ferrolho de ferro fundido,
selado com cera vermelha. O governo local exigia
que todos os documentos familiares fossem
apresentados em 30 dias, sob pena de perda de
direitos civis. Um novo regulamento da República
Velha, revivido pelo poder das oligarquias,
tornara os herdeiros menores suspeitos de
corrupção até provar inocência. Ele não sabia
disso até ver a carta com selo do Ministério da
Justiça pendurada na porta da cozinha.
No segundo dia, ela chegou com um caderno
manchado de café. Abriu na página do ano de 1897.
Lá estava escrito o nome dele — nascido em 1894,
morto aos três anos, declarado falecido por
doença de febre amarela. Um erro no registro. O
documento fora assinado pela avó, com tinta de
carvão. A irmã não falou nada. Só colocou o
caderno sobre a mesa e saiu.
No terceiro dia, ele encontrou o corpo do pai na
cama do quarto de visitas. Estava vestido com o
uniforme do exército imperial, mesmo que o país
já fosse republicano. A pele era fria, mas as
mãos ainda seguravam um bilhete: “Você não é meu
filho.”
O sol se pôs. A campainha tocou de novo. Dessa
vez, ninguém respondeu. Mas o jornal do dia
seguinte publicou uma foto da casa — sem nome,
sem identificação — com a legenda: “Fazenda
abandonada no litoral paulista. Pode abrigar
riquezas esquecidas.”
A irmã apareceu na frente da cerca de pedra.
Estava com um lenço na cabeça, e os olhos tinham
a cor do chão depois da chuva. Olhou para ele,
depois para o céu. Disse apenas: “Nunca foi seu
lugar.”
Ele pegou a chave do sótão. Abriu. Dentro, um
cofre de ferro com a inscrição: “Se alguém abrir
isto, é porque o tempo mentiu.”
Dentro, um retrato de duas crianças. Uma delas,
ele. A outra, uma menina com o rosto da irmã.
O relógio da sala voltou a funcionar. E agora
marcava 1905.


