O trem chega em Santos ao raiar do dia,
barulhento como um segredo mal guardado. No
vagão, um homem sentase com os olhos fechados,
mas não dorme. As mãos apertam um maço de
documentos com selos de 1892 — todos
falsificados, todos entregues por um escrivão
morto na prisão de Santa Cruz. Ele é o único que
sabe que o cadáver do presidente não foi
enterrado onde dizia a história.
A era da República Velha não é apenas um nome:
ela mudou o mundo. O novo sistema fiscal
obrigava os fazendeiros a registrar toda a
produção de café em livros públicos que eram
usados para calcular impostos e elegibilidade
política. Mas quem controlava os livros
controlava o país. E agora, com as contas sendo
digitalizadas pela primeira vez em 1927, esses
registros começaram a se contradizer — em
milhares de páginas, nomes de latifundiários
aparecem mortos, mas ainda pagando impostos. Um
erro? Ou um assassinato com data de nascimento
falsa?
Ele, o detetive cínico, foi afastado do serviço
público depois que descobriu que seu próprio pai
tinha assinado o documento que condenou o
coronel Leopoldo à morte por traição. Agora, o
mesmo nome aparece no novo arquivo: “Leopoldo,
filho de Alcides”, listado como herdeiro
legítimo da Fazenda São Pedro. O registro está
em um computador elétrico da Secretaria de
Finanças, mas ninguém pode explicar como ele
chegou lá.
Na estação, um homem de terno gasto, com o rosto
marcado por cicatrizes de infância, se aproxima
sem falar. Diz apenas: “Eles sabem que você está
aqui.” O detetive reconhece o tom da voz — era o
mesmo que mandara matar sua irmã em 1919. Um
erro de memória? Um fantasma? Não importa. A
aliança temporária começa quando o outro entrega
um relatório com cinco testemunhas mortas —
todas citadas nos livros que deveriam estar
apagados.
No quarto andar de um prédio abandonado na Rua
Augusta, eles abrem um cofre de ferro que só
pode ser aberto com uma combinação de números
que coincidem com datas de mortes reais. Dentro,
uma carta escrita em tinta vermelha: “Quando o
tempo se esquecer, o sangue lembra.” Ao lado,
uma fotografia do detetive criança, segurando
uma arma. Na foto, o fundo mostra o presídio
onde seu pai foi executado — mas o presídio só
foi construído dez anos depois.
Ele pega o celular. Liga para a polícia. O
número está ocupado. Desliga. Abre o último
arquivo no computador. Uma linha piscante:
"Processamento interrompido por violação de
direito de propriedade intelectual."
Ainda assim, ele digita o código do cofre mais
uma vez. O sistema fecha. O computador reinicia.
Na tela, uma lista se exibe: “Herdeiros
legítimos da República Velha: 147.” Entre eles,
o nome dele.
Ele não tem mais certeza de quem começou a
vingança. Só sabe que acabou.
O sol nasce sobre São Paulo, cobrindo os
telhados de aço com luz amarela. O trem volta
para o interior. O detetive não sobe. Ele
caminha para o centro, o maço de papéis dentro
do bolso, pesando mais que o corpo inteiro.
O mundo mudou. Mas a dor continua igual.


